O resultado da Petrobras em 2023 é sinal de resiliência

Mahatma dos Santos
CartaCapital
Trabalhador olha para produção da Petrobras ao longe

A Petrobras divulgou na quinta-feira (7/3) seus resultados operacionais e financeiros referentes ao exercício 2023. Apesar do cenário global desafiador, a estatal alcançou lucro líquido anual de 124,6 bilhões de reais, o segundo maior de sua história, e segue como empresa sólida, lucrativa e com desempenho operacional robusto. 

 

Trabalhador olha para produção da Petrobras ao longe

Plataforma da Petrobras. Foto: Agência Petrobras

 

A distribuição de dividendos em 2023 pode alcançar até 72,4 bilhões, caso a proposta de seu Conselho de Administração seja aprovada em assembleia no dia 25. No quarto trimestre do ano, o lucro líquido foi de 31 bilhões de reais.

 

Os principais vetores do resultado positivo foram a melhora do seu desempenho operacional, sobretudo, no upstream do pré-sal e em seu parque de refino; o maior volume de petróleo comercializado, em especial no exterior; a melhora no seu resultado financeiro; e, mais uma vez, sua preponderância no mercado nacional. 

 

Mesmo em um cenário marcado por disputas comerciais e conflitos geopolíticos, que influenciaram negativamente a demanda e os preços do petróleo, a Petrobras demonstrou resiliência operacional e reafirmou sua capacidade de geração de caixa.

 

Quando se compara o resultado da companhia em 2023 com o ano anterior, alguns fatores foram determinantes para a queda de 33,8% de seu lucro líquido, que saiu de 188,3 bilhões de reais, em 2022, para 124,6 bilhões de reais. 

 

O principal deles foi a condição mais restritiva do mercado internacional de óleo e gás, que resultou na queda de 18,4% nos preços do petróleo brent e na redução de 20,1% nos preços básicos dos derivados no mercado brasileiro – movimentos que, combinados ao declínio de 0,5% na comercialização de derivados no mercado interno, foram decisivos para a diminuição de 20,3% da receita líquida em 2023, quando comparada ao ano anterior.

 

Outros fatores relevantes foram o aumento de 92,3% de despesas operacionais da companhia, que saíram de 41,1 bilhões em 2022 para 79,1 bilhões em 2023, e os efeitos de “itens não recorrentes no balanço, tais como impairment (reversão ou perda líquida no valor de recuperação de ativos), abandono de áreas e contingências judiciais.

 

Os indicadores operacionais da Petrobras se fortaleceram em 2023, apesar do recente processo de desmonte da companhia, via venda de ativos estratégicos e redução sistemática de seus investimentos. 

 

Em 2023, a estatal conseguiu expandir em 3,7% sua produção de óleo e gás e em 1,7% sua produção de derivados, em comparação com o ano anterior. Desempenho explicado tanto por ganhos de eficiência e entrada em operação de quatro novos sistemas de produção no upstream, quanto pela decisão estratégica de ampliar o fator de utilização médio de seu parque de refino, que passou de 88%, em 2022, para 92%, em 2023.

 

A solidez econômica da Petrobras em 2023 ficou expressa também na manutenção de sua capacidade de geração de caixa operacional, que alcançou montante de 215,7 bilhões, cerca de 15,5% inferior ao observado em 2022, mas, ainda assim, robusta e compatível com o cenário da indústria.

 

Os usos desses recursos, contudo, é o que distingue as escolhas da atual gestão da companhia quando comparamos sua destinação no ano anterior. Se, em 2022, cerca de 194,2 bilhões ou 76% dos recursos operacionais gerados se destinaram à remuneração de acionistas, em 2023, esse percentual caiu para cerca de 47,1% e totalizou R$ 101,5 bilhões. 

 

Por outro lado, os investimentos cresceram em 2023, saindo de 19,4% (ou 49,6 bilhões de reais), em 2022, para 28,0%, em 2023, quando alcançou cerca de 60,3 bilhões de reais, elevação de 21,5% na comparação anual. A retomada de mais investimentos é um instrumento necessário para solidez financeira da Petrobras e do país.

 

Por fim, a Petrobras anunciou uma proposta de distribuição de dividendos equivalente a 14,2 bilhões no 4T23 (1,098 por ação ordinária e preferencial), contudo, condicionada à aprovação dessa proposta por uma assembleia a ser realizada no dia 25. 

 

Se aprovada essa proposta, a remuneração dos acionistas da companhia pode alcançar robustos 72,4 bilhões em 2023, valor inferior aos megadividendos pagos no último biênio (média anual de 155,7 bilhões de reais), mas cerca de 12 vezes superior à média observada entre 2003 e 2020 (5,9 bilhões de reais).

 

Vale observar que o Conselho de Administração da companhia ainda propôs que o lucro remanescente do exercício de 2023, após dividendos e formação de reservas legais e estatutárias, que totaliza 43,9 bilhões de reais, seja integralmente destinado para “reserva de remuneração do capital” (prevista no inciso II, art. 56 do Estatuto Social). 

 

Isto significa que está assegurada a distribuição desse montante, em algum momento futuro, a seus acionistas, seja na forma de dividendos, juros sobre o capital próprio, antecipações ou recompras de ações. Novamente, se efetivada de forma integral, essa proposta pode elevar ainda mais a remuneração dos acionistas nos próximos trimestres.

 

 

» Leia também outros artigos sobre Estratégia financeiraClique aqui.

 

 

Em síntese, a despeito da capacidade de resiliência demonstrada pela companhia em 2023, é preciso orientar seu plano estratégico e destinar a riqueza gerada pela Petrobras, empresa estatal, para consolidação de um plano de investimentos sistemáticos na retomada das atividades exploratórias, expansão e modernização de seu parque de refino e inserção definitiva da companhia no desenvolvimento de novas rotas tecnológicas de baixo carbono. 

 

A Petrobras pode e deve ser um instrumento de política industrial importante para impulsionar a transição energética justa no Brasil, mas para isso é preciso superar os entraves e interesses curto prazistas.

 


 

Artigo publicado originalmente na CartaCapital.

Comentários:

Comentar