A China acelera as medidas para se tornar uma potência limpa em tempo recorde

Rodrigo Leão
Broadcast Energia
A China acelera as medidas para se tornar uma potência limpa

Em 2021, o lançamento do 14º Plano Quinquenal (2021-2025) marca uma nova fase da transição energética da China. Além das preocupações com a segurança energética com grande foco em infraestrutura, o modelo chinês busca associar o processo de reurbanização e investimento tecnológico às novas formas de geração de energia e às políticas de sustentabilidade. Esse tripé caracterizado pela infraestrutura, reurbanização e tecnologia deve guiar à China ao seu objetivo de, em primeiro lugar, garantir sua segurança e, em segundo lugar, zerar suas emissões de carbono até 2060.

 

Um recente artigo publicado na revista “Environmental Science and Ecotechnology” por dois pesquisadores britânicos e dois chineses detalha as medidas do 14º Plano Quinquenal que devem orientar à China a alcançar suas metas de garantir energia no longo prazo, eliminando as emissões de carbono. Em setembro de 2020, na Conferência das Nações Unidas, o presidente chinês, Xi Jinping, garantiu que a China terá neutralidade de carbono em 40 anos.

A China acelera as medidas para se tornar uma potência limpa

Monumento chinês, em Beijing. Foto: Magda Ehlers / Pexels.

Durante o período da Covid-19, com as gigantescas restrições de locomoção e de socialização espacial, a China enxergou uma oportunidade de implementar novos investimentos em tecnologias digitais e adotar uma política de urbanização que pudesse alavancar a transição energética chinesa. Segundo o estudo, pelo menos quatro diretrizes do plano já estão orientadas por esse novo tripé.

 

A primeira ação diz respeito a aproveitar a queda do consumo de energia durante a pandemia para antecipar o pico de emissão de carbono da China. A previsão, até a década passada, é que o gigante asiático alcance seu pico de energia em 2030. Todavia, caso o país consiga manter a redução do consumo energético e acelerar investimentos em digitalização e novas formas de energia, o país pode antecipar o pico de emissão e, com isso, acelerar o processo de descarbonização.

 

Como resposta à Covid-19, houve algumas mudanças de comportamento que devem ser encorajadas, expandidas e promovidas após a pandemia. O estudo afirma:

“Estas incluem melhor uso do espaço urbano; investimentos em capacidade de transporte público para oferecer um substituto atraente para carros particulares, e para evitar a expansão e o esvaziamento das cidades; recuperação de ruas para pedestres e ciclistas; e redução da poluição do ar local. Tais melhoras na qualidade de vida da cidade podem aumentar o bem-estar e melhorar o crescimento futuro, criando um ambiente atraente para os trabalhadores de alta qualificação.”

 

A segunda é a manutenção das políticas de substituição do carvão por energias limpas, que são prioridade desde 11º Plano Quinquenal (2006-2010). Nesse sentido, os investimentos em projetos verdes e a expansão da infraestrutura energética em vários países no seu entorno, no âmbito da Nova Rota da Seda, que visam reduzir seu consumo de carvão, devem se acelerar. O objetivo é não apenas garantir a segurança energética local, mas também criar uma rede energética “multifronteiras” alimentada por fontes mais limpas.

 

A terceira medida se refere ao processo de interiorização do crescimento econômico chinês. No lançamento do 14º Plano Quinquenal, o presidente Xi enfatizou a importância de reforçar a dinâmica de dual circulation. Isto é, associar o crescimento econômico do mercado externo via exportações e investimento estrangeiro, com uma reestruturação do crescimento local, a partir de um grande processo de reurbanização e reconfiguração das cidades chinesas.

 

O crescimento e a criação de riqueza da China, que tem se concentrado nas grandes cidades, devem ser reorientar para apoiar as cidades menores, ou seja, os investimentos em urbanização e infraestrutura devem ser deslocados dos grandes centros urbanos para os locais mais periféricos, visando criar uma rede de indústria e serviços sustentada por energias mais limpas.

 

O artigo destaca:

“A urbanização, como um motor chave da demanda doméstica, terá que desempenhar um papel central no reequilíbrio em direção a uma maior dependência da economia doméstica. Esta estratégia de reequilíbrio pode ser melhorada através de uma mudança dos hubs de megacidade voltados para a exportação para cidades menores, bem contidas, “limpas, compactas e conectadas” no interior.”

 

Na sequência, o plano destaca a importância dos investimentos em transformação digital, tecnologia nas redes energéticas e inovação no ramo de comunicação. Algumas novas tecnologias, como a eletrólise de hidrogênio, oferecem oportunidades de exportação potencialmente enormes para a China. A implementação de tecnologias digitais nos setores econômico e social pode melhorar a eficiência energética e promover uma transição sustentável através de inovações de sistemas.

 

De forma geral, a reorganização do espaço, os investimentos públicos em infraestrutura energética e tecnóloga, a transformação digital, associada a uma visão de manter sua liderança regional, devem pautar a transformação chinesa no setor energético. A julgar pelo êxito das transformações alcançadas pelo país nos últimos 40 anos, não é impossível que o país consiga se transformar, em tempo recorde, numa potência econômica e industrial com uma matriz energética mais limpa.


 

Artigo publicado originalmente pela Broadcast Energia.

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