Petrobrás para quem? A armadilha dos megadividendos

Deyvid Bacelar, Mahatma dos Santos
Site do Sindipetro Unificado

As mudanças na Política de Remuneração aos Acionistas adotadas pela Petrobrás desde 2019 consolidaram um modelo predatório, que privilegia o retorno financeiro imediato aos seus stakeholders em detrimento de investimentos estratégicos para a sustentabilidade operacional e financeira da empresa no longo prazo e a segurança energética nacional.

 

Acompanhada de uma redução sistemática dos investimentos da estatal, essa política transformou a Petrobrás em uma das maiores pagadoras de dividendos do mundo. É urgente sair da armadilha do curto prazo.

 

Em 2024, mesmo com a queda de 70,6% no lucro líquido da companhia, que fechou o ano em R$36,6 bilhões, a Petrobrás distribuiu aos seus acionistas R$75,8 bilhões, a quarta maior distribuição de dividendos de sua história. Desse montante, vale destacar que apenas 37,0% remuneram o seu grupo de controle (União e BNDES), enquanto 63,0% destinam-se a investidores privados, a maior parte ou 46,4% vai para investidores estrangeiros e 16,5% a investidores brasileiros.

 

Imagem retangular com fundo branco e bordas azuis; o texto chama o público a se inscrever na lista de transmissão do Ineep no WhatsApp.

 

Foi a primeira vez na história que o volume de dividendos pagos foi duas vezes maior (207,1%) que o lucro líquido da companhia no ano.

 

Os dividendos só superaram o lucro líquido da companhia duas vezes na história, em 2020 (144,9%) e 2022 (111,1%), ambas no governo Bolsonaro, período marcado pelo desmonte e desnacionalização da Petrobrás. Em 2023, os dividendos pagos equivaleram a 76,2% do lucro líquido.

 

A lógica curto prazista de pagamentos extraordinários de dividendos associada a garantia de remuneração mínima aos acionistas mesmo em caso de prejuízo, não só restringe a capacidade de investimentos, como afasta a estatal do interesse público e de seu compromisso histórico de valorização de seus trabalhadores.

 

O resultado da manutenção desse compromisso com alta rentabilidade e distribuição antecipada de seus resultados a acionistas estabelecido no pós-golpe de 2016, resultou na distribuição total de R$502,9 bilhões em dividendos, entre 2019-2024, cerca de 99,9% do lucro líquido gerado no período, R$503,4 bilhões.

 

É preciso mudar a rota da Petrobrás. O compromisso com megadividendos deve ter fim.

 

Entre 2003 e 2013 a Petrobrás era lucrativa e distribuía cerca de 34% de seu lucro líquido na forma de dividendos. Retomar esse patamar é fundamental para que a estatal seja capaz de enfrentar os desafios impostos pela crise climática e transição energética.

 

 

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A maior empresa brasileira não pode se orientar apenas para remuneração de investidores privados ou compromissos fiscais da União, deve ser um instrumento estratégico para o desenvolvimento e soberania nacional.

 


 

Artigo publicado originalmente no site do Sindipetro Unificado.