O Relatório Link e a Prospecção marinha

A produtividade de petróleo em águas profundas e ultraprofundas fizeram do Brasil especialista nesta atividade ao desenvolver técnicas próprias. Contudo, a busca por petróleo no Brasil foi inicialmente em terra, algo que os Relatórios Link (1960-1961) indicavam como improvável de encontrá-lo em terra e provável em mar.

Os Relatórios Link foram uma série apresentada em quatro partes escrita pelo geólogo norte-americano Walter Link entre 1960 e 1961. Link fora contratado pelo Gen. Juracy Magalhães, primeiro presidente da Petrobras. Estes relatórios foram considerados polêmicos por algumas razões, mas a principal delas apontava para Link, ex-funcionário da Standard Oil, e que passou a ser considerado um espião americano.

O resultado dos Relatórios Link apontava para a impossibilidade de produção de petróleo nas bacias terrestres brasileiras logo nas primeiras análises. Suas conclusões estavam diretamente relacionadas com a capacidade da tecnologia geofísica da época, ou seja, até onde a tecnologia do conhecimento da geofísica apontava, não havia petróleo nas bacias terrestres, mas o avanço da própria ciência poderia alterar o quadro.

Nos Relatórios Link contavam com algumas conclusões importantes. Primeiramente, que as bacias terrestres que estavam sendo exploradas (Marajó, Acre, Baixo Amazonas, Médio Amazonas, Paraná e Parnaíba) deveriam ser descartadas por haver pouca probabilidade de produção de petróleo, pelo menos naquele estágio de evolução da geofísica. Em seguida, a busca deveria ser concentrada no mar. Também, que a bacia do Alto Amazonas deveria ser pesquisada após o desenvolvimento da geofísica, pois demonstrava ser a única camada de rochas geradoras de petróleo em terra, no Brasil. Como efeito, ao fim da apresentação das recomendações de Link, os relatórios foram rejeitados e o Estado continuou a prospecção em terra.  

Entre 1961 a 1964 a Petrobras continuou a perfurar, “às cegas”, poços terrestres, sem sucesso. A produção interna caiu, necessitando de importações para que a Petrobras funcionasse. Com o início do Regime Militar, o cenário econômico brasileiro encontrava-se numa crise cambial e econômica interna, e com os resultados vagos na prospecção.

Somente em 1968 a Petrobras conseguiu fazer a primeira prospecção em um poço marinho, na costa do Sergipe, como indicavam os Relatórios Link. Logo no segundo poço perfurado no mar, encontrou-se petróleo. Restava, agora, desenvolver a tecnologia necessária de prospecção marinha. Mesmo com esta descoberta, as pesquisas dos poços terrestres não foram abandonadas.

Ao mesmo tempo, o Estado passou a entender que havia necessidade de investir na pesquisa nacional. Foi fundado em 1968, no Rio de Janeiro, o CENPES (Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello), um centro de pesquisa e de desenvolvimento com o objetivo de atender as demandas tecnológicas da Petrobras. Além do CENPES, as universidades federais foram estimuladas a propor estudos no setor do petróleo.

Quanto à prospecção marinha (1974) a Petrobras descobriu a sua maior província produtiva de petróleo, a Bacia de Campos na costa do estado do Rio de Janeiro e sul do estado de Espírito Santo. A Bacia de Campos é responsável por mais de 80% da produção nacional efetiva de petróleo. A primeira perfuração ocorreu em 1976 (profundidade de 100 metros da lâmina d’água) e o início da exploração comercial foi em 1977. Até 1985, as pesquisas em poços terrestres ainda figuravam no Brasil, ao mesmo tempo, a Petrobras solidificou sua especialidade com a descoberta de poços gigantes em águas profundas. Consequentemente, os poços em terra passaram a ser abandonados. Entre 1985 e 1997 a Bacia de Campos manteve-se como fundamental fonte de petróleo nacional. Os investimentos públicos permitiram o desenvolvimento das plataformas de prospecção marinha.

Os dados apresentados pelos relatórios de Walter Link que foram, inicialmente, rejeitados, indiretamente motivaram o desenvolvimento da pesquisa na área do petróleo em território nacional. Hoje, a tecnologia de prospecção de petróleo em águas ultraprofundas é de desenvolvimento da própria Petrobras. Tecnologia nacional, impulsionada pelo desejo de desenvolvimento.



Referências

 

CARIELLO, Rafael. «Relatório Link: Geólogo dos EUA sugeriu desistir de exploração no país» Folha online, 3 de outubro de 2003, http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2003/petrobras50anos/fj0310200309.shtml, acessado em 20 de agosto de 2011

DIAS, José Luciano de Mattos. e QUAGLINO, Maria Ana. A questão do petróleo no Brasil: uma história da Petrobras. FGV, Rio de Janeiro, 1993.

LUCCHESI, Celso Fernando. «Petróleo». Estudos Avançados, São Paulo, v. 12, n. 33, Aug. 1998 .

MAGALHÃES, Juracy. O último tenente, Rio de Janeiro: Record, 1996.

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